Sobre Hilda

Carta a Hilda Hilst

por Lygia Fagundes Telles para o Estadão.

A primeira lembrança que guardo de você e que neste instante me ocorre tão nítida, tão límpida, tem como cenário a antiga sala de chá do Mappin: as mesinhas com suas toalhas engomada (verão de 1950) e o cheiro quente de brioche ao som de uma orquestra com violinos, principalmente violinos no estrado redondo, recoberto com um tapete de veludo vermelho. Uma mesa maior me homenageava, era moda oferecer chá a escritores e até a políticos. Quando você se levantou para me saudar, os violinos valsantes fizeram uma pausa. Então Guilherme de Almeida sentado a minha direita, murmurou ajustando no olho o seu monóculo: “Veja, ela é frágil como um galho de avenca.” A saudação era em nome dos acadêmicos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco mas confesso agora que não guardei a palavra, guardei a imagem: o céu diluído em azul na moldura da janela, os garçons discretos pisando tão distintos, as pessoas distintas mastigando tão discretas, em repouso os violinos nos ombros protegidos com um lenço branco. E você, a camisa de tricoline branca, os punhos largos, os pulsos finos, o cabelo louro todo puxado para trás e preso na nuca por uma fivela, dourada a face da juventude intacta.

“Sou poeta”, confessou-me com um tranquilo orgulho não destituído de um certo pudor. E ainda Guilherme de Almeida, guardando o monóculo e sorrindo observou: “A palavra poetisa deve estar meio desmoralizada, quando a poetisa é mesmo séria, se diz poeta. Poetisa virou declamadora…”

Sua poesia. Hilda. Perplexidade no início com um sabor um tanto áspero de fruto colhido às pressas, a graça de uma poesia se encantando e se desencantando com o amor ainda verde, jogo de busca e perda no qual você se empenhou em vida e verso. O processo de amadurecimento acompanhado passo a passo o tema maior, humano e transcendente – ah, Hilda, com que força o amor inspirou e sustentou seu verso lírico autêntico, sem máscara porque foi de arte. Você ousou numa época em que só os homens ousavam palavra e gesto. Olhando para trás, vejo sua delicada silhueta na vanguarda de uma poesia descoberta e ao mesmo tempo oculta, secreta como uma noz dentro da casca.

Releio a primeira parte dessa coletânea, POESIA (1959/1967), e verifico que na fragmentação dos vários amores reais, o amor ideal se recompõe inteiro, renovado cada dia, lume, tardume, chama múltipla e una na sua invenção e magia. Tanta poesia de amor já se escreveu do tipo em que o leitor, logo nas primeiras linhas já faz aquela cara de cansaço e tira o chapéu em respeito ao morto mas se afasta rápido: “E eu com isso?!” O que me faz pensar que em ficção o leitor só se interessa realmente quando de um modo ou de outro se sente envolvido, mais do que envolvido, participante: “Esta é a emoção que eu queria explicar e não conseguia, esta é minha dor. Esta é a minha alegria.” Ah, Hilda, o imenso mar de livros admirados mas não lidos, aqueles que o leitor cita mas não identifica, distantes de sua órbita as vinte mil léguas submarinas. Eis que sua poesia, sendo tão pessoal, tão subjetiva é em essência universal na linguagem, uma linguagem que nada tem de caracteristicamente nacional, sem fronteiras como o próprio amor nessa poesia de amor.

Saberão os amantes que sua poesia lírica é das mais belas dentro da nossa lírica? Enfim, os amantes nunca sabem muito além dos seus delírios. Mas, e os críticos? Leram eles esse seu soneto? Aflição de ser eu e não ser outra./ Aflição de não ser, amor, Aquela/ Que muitas filhas te deu, casou donzela/ E a noite se prepara e se advinha/ Objeto de amor, atenta e bela./ Aflição de não ser a grande ilha/ Que te retem e não te desespera/ A noite como fera se avizinha./ Aflição de ser água em meio à terra/ E ter a face conturbada e móvel./ Não saber se se ausenta ou se te espera./ Aflição de te amar, se te comove. E sendo água, amor, querer ser terra.

Amor e morte com panejamentos místicos são os temas mais constantes dessa verdade que no conceito de Keats, é a própria beleza. Beleza que não é fácil de ser entendida, beleza de um tempo que não é senhores, de inocência, nem de ternuras, nem de cantigas. Mas a tentativa de comunicação que ser feita sem nenhuma concessão ao leitor viciado na leitura rasa, alegre, descomprometida.

Partindo da realidade para a ficção não só na poesia mas também na dramaturgia e novelística, você ensaia os primeiros esboços metafísicos nos Sete Cantos do Poeta para o Anjo – sete voos entremeados de quedas na experiência do amor que anuncia amor total no encontro com Deus.

Em febre, as pálpebras em bras, sua fala atinge seu ponto mais alto neste canto: Anjo, asa; Mão poderosa sobre a minha mão/ Que o verso nunca mais transfigurava./ Prisma solorizado / Transcedência primeira / Dulcíssima presença: / Alta noite/ O que foi treva em mim Em ti resplandecia.

Os processos técnicos nos quais você se depura com uma intuição que se assemelha a um sortilégio, desenvolvem seu estilo no sentido de representar a idéia com fidelidade tão fiel que a poemática se enriquece na captação de imagens e sons. Esse enriquecimento se acentua na prosa com um vocabulário denso, com uma metáfora original sempre e com um bom gosto de quem não engana mesmo quando ousa a mais crua das linguagens.

Mas espera, por enquanto ainda percorre a trajetória poética do ser. O Anjo ficou longe – e ao mesmo tempo, tão próximo – enquanto agora você vai sozinha, fortalecida em amor pelos caminhos que a conduzirão à descoberta da natureza. Sua emoção com as ervas, as águas, os insetos e os bichos – seu deslumbramento com as transparências de asas permitem que através dessas asas e folhas você vislumbre a presença de Deus. O Deus de que vos falo / Não é um Deus de afagos./ É mudo. Está só. E sabe/ Da grandeza do homem / (Da vileza também)/ E no tempo contempla / O ser que assim se fez.

E a poesia pastoral, serena e pura. Persiste a busca mas essa busca se reveste agora de uma lentidão contida e grave. Nessa poesia lírica filosófica, sem nenhum traço de pedantismo, revela você além da intuição que é síntese, um agudo poder de análise que seria a preparação do terreno para a prosa dramática despontando em seguida.

“E raro encontrar no Brasil e no mundo escritores, ainda mais neste tempo de especializações, que experimentam cultivar os três gêneros fundamentais da literatura – a poesia lírica a dramaturgia e a prosa narrativa – alcançando resultados notáveis nos três campos. A este grupo pequeno pertence Hilda Hilst” – eis como Anatol Rosenfeld inicia o prefácio de FLUXO FLOEMA e que enfeixa cinco novelas exemplares como linguagem e temática. A poesia se transmuda em prosa, você mesma já advertira num poema, não te espantes da vontade do poeta em transmudar-se. Apenas essa transmudação se referia a bichos e plantas e não ao gênero literário, decorrência natural do desejo de novas aventuras e pesquisas.

Com uma segurança que poderá surpreender aqueles que não conhecem seu austero método de trabalho estruturado no despojamento e solidão, com uma força que poderá parecer imprevista para aqueles que não sabem da sua imaginação inquietante, eis que você escreveu um estranho livro.

Já nas suas peças como o RATO NO MURO, O VISITANTE ou O VERDUGO, já nessas peças góticas, mais próximas de Backett do que de Nicos Kazantzakis que marcou sua poesia, nelas se delineiam as personagens que irão logo em seguida fervilhar nas novelas. Personagens que não são planas mas esféricas. Personagens que não são existentes mas sim essências num mundo que oscila entre a loucura e a lógica, entre o real e o mágico. Certas aberrações me fazem pensar nessas salas de espelhos deformantes onde as silhuetas vão se metamorfoseando numa variedade que vai do non sense ao rigor de uma operação matemática. E nesse aspecto, vejo-a incluída na família de um François Mauriac que lidava também com personagens-essenciais, arquétipos efeitos ao inferno da demência e do caos, caos aparente porque sua lucidez e cálculo acabam por ligar as peças de tal forma que nada é gratuito ou imprevisto. O Unicórnio, a mais fascinante novela de todo o livro, com seu grotesco e ambiguidades é bem uma amostra dessa temática que destaca os fragmentos da nossa condição forcejando por romper a noite de focinhos, lama e cornos numa inspirada nostalgia de Deus. Há um código em cada palavra, o que não torna a leitura do seu FLUXO-FLOEMA uma leitura leve. Como o poeta Drummond, você também desafia o leitor desavisado: “Trouxeste a chave?”.

Adivinho o seu sorriso, um sorriso que interroga e que responde: e daí? Um público maior lerá esses livros? Teatros mais populares levarão essas peças? Bem sei, minha amiga, não fosse também escritora, ai de mim! bem sei das dificuldades de comunicação para o escritor que não concede nem se acomoda. Vou dizer coisas terríveis à gente que passa. / Dizer que não é mais possível comunicar-me – você anunciou num poema.

Sua inquietação também é minha. Foi candura ou ironia e criação do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro? Justamente o jabuti com seu escudo de residência, justamente o jabuti com sua lentidão pré-histórica é o eleito para o troféu do escritor. Perseverante? Sem dúvida, ei-lo que vai se arrastando, pesado, difícil na sua marcha de retaguarda; todos o ultrapassam. Engole a poeira de todos. Mas lá vai com sua carapaça remendada, lá vai implacável através de desertos, montanhas e mares, centenário. Póstumo. Um dia – daqui a cinquenta, cem anos? Um dia ele chega.

Não temos nem o escudo nem a longevidade do jabuti: nosso pelo é sensível demais e nosso tempo é curto. Precisamos ter, isto sim, sua paciência. Paciência, minha querida amiga, paciência. a comunicação de um escritor do quarto mundo é mesmo labirintosa e por caminhos mais demorados do que os previstos pela cartomante quando começa a botar na mesa o leque de cartas pretas. Quem tiver fé, deverá rezar para manter acesa essa chama da perseverança digna dos santos, própria dos eleitos. Quanto aos outros, esses devem seus exercícios de meditação e renúncia a um mundo de pompas e glórias tão passageiras. A profissão é mesmo dura. Só aqui? Olha que em países mais adiantados também tem havido casos: a edição de Les Cahiers de André Walter, de André Gide, teve vendidos uns vinte exemplares em toda a França num período de quase vinte anos….

E agora sou eu que estou sorrindo: não, não lembro esse fato para reconforto mas com a tranquilidade de quem já percebeu (tão esperta!) que o que realmente interessa é trabalhar. Um bom estímulo é pensar que os escritores da América Latina estão em plena moda. Há alguns anos, quem sabia da existência de um Júlio Cortázar? Que comunicação esse escritor de língua tão próxima tinha com nossa gente ou mesmo com as gentes de outros países sul-americanos? E eis que agora até nos balcões de alguns cafés a balconista já arqueia as sobrancelhas e faz aquele ar de profundidade quando ouve esse nome: ah, cortázar!…

E, então? A comunicação – tateante, embora! – vai se estendendo aos poucos, isso é importante. Importante ainda saudar em tom maior esse seu livro e repetirmos juntos: “Esperança nossa, salve, salve!”

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